Quando penso em minha Terra, penso sobretudo no sonho possível,
mas nada fácil, da invenção democrática de nossa sociedade.

Paulo Freire

 

Como começar a contar uma história que ainda pode ser considerada recente? Em 2015, o Teatro em Comunidades completa apenas cinco anos de existência. Porém, mesmo que ele ainda esteja em sua primeira infância, nós, que vivemos tão intensamente suas experiências nos últimos anos, temos a nítida sensação de que o seu curso é bem mais longo, devido ao tanto que já criamos, inventamos, aprendemos, tropeçamos, ensinamos, nos divertimos.

É verdade que a história do ‘projeto’- que se transformou em ‘programa’ – se confunde com a minha própria trajetória, pessoal e acadêmica. Em 2010 ingressei como docente no Departamento de Ensino do Teatro da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Eu havia acabado de defender minha tese de doutorado, que aborda temas relacionados às produções artísticas desenvolvidas em comunidades da cidade do Rio de Janeiro.

Ainda reconhecendo o ambiente da universidade e o desafio que me aguardava – contribuir para a formação de professores –, descobri, além dos campos do ensino e da pesquisa, o campo da extensão. Percebi nele a oportunidade de retornar ao universo das comunidades e ao trabalho com os jovens. E assim, em março de 2011, nasceu o então projeto de extensão Teatro em Comunidades – Redes de Teatro na Maré.

Como professora de uma universidade pública, enxerguei a extensão como a oportunidade de criar um diálogo entre a instituição federal e as comunidades, entre os licenciandos e os jovens da Maré e, além disso, como forma de reafirmar um compromisso de estabelecer parcerias capazes de colaborar com a criação de uma realidade menos desigual.

Para que o “projeto” ganhasse vida foi necessário buscar parceiros fortes. Encontrei a Redes de Desenvolvimento da Maré por intermédio de Silvia Soter, à época coordenadora da área de Artes da organização. Logo depois, encontrei-me com Eliana Souza e Silva, diretora da REDES, que dedicou, com entusiasmo, apoio à ideia. Mais adiante, deparei-me com Clarisse Lopes, fonoaudióloga e professora, que já desenvolvia um trabalho de contação de histórias e teatro no CMS Américo Veloso.

Lembro-me bem do dia em que compartilhei a ideia do projeto com alguns estudantes da Licenciatura. Aline Vargas e Carolina Gomes foram as primeiras a “pular das cadeiras”. Também guardo na memória o dia em que anunciamos o projeto a um grupo de adolescentes que freqüentava um curso na REDES.  Ao ouvirem de nós a pergunta “quem aqui gosta de teatro?”, quase todos levantaram o braço. Uma das moças que demonstrava mais animação, perguntou: “mas esse curso é daqueles que chegam e vão embora logo?” 

A jovem havia me dado a chance de esclarecer o que era uma ação de extensão e de dizer, também, que eu entendia o receio dela, que sabia sobre a que tipo de “projeto” ela se referia: aquelas intervenções relâmpagos, que chegam bem patrocinadas, duram pouco tempo e que, ao sair, deixam para trás muita expectativa frustrada. Afirmei que no nosso caso seria diferente, pois estava em nossas mãos a tarefa de desenvolver uma ação de longo prazo e com autonomia. Desde então, minhas manhãs de sábado nunca mais foram as mesmas.

O “Bonde da Maré”, como denominamos a van da UNIRIO, parte todo sábado do bairro da Urca em direção às comunidades de Nova Holanda, Praia de Ramos e, mais recentemente, à Penha. Lá encontramos os participantes dos núcleos de teatro do atual Programa Teatro em Comunidades. Hoje, nossos pontos de encontro já são muitos pela cidade: os teatros e os museus que frequentamos, ou o campus da UNIRIO, na Praia Vermelha. É percorrendo juntos todos esses caminhos que sentimos, a cada dia, nos aproximar um pouco mais da igualdade de direitos sobre a nossa cidade.

Foram muitos os jovens que ajudaram a criar o Teatro em Comunidades; uns permanecem, dois são, atualmente, estudantes da Escola de Teatro da UNIRIO, outros a vida levou para outros rumos. O mesmo aconteceu com os licenciandos.

A história foi se tecendo, por meio dos encontros, das despedidas, dos acertos e dos erros, da ação e da reflexão. A vocês todos que fizeram e fazem parte dessa história – muito obrigada. A vida é dinâmica, mas o afeto permanece.

 

Marina Henriques Coutinho
Coordenadora do Programa Teatro em Comunidades

 

Auto da Compadecida - 2011

Auto da Compadecida – 2011

 

 

A Alma Boa de Setsuan

A Alma Boa de Setsuan – 2014